De Eustácio a Acio
- Amanda Wamy

- 24 de out.
- 5 min de leitura

O Orfanato da senhora Piedade era um lugar gélido e lúgubre, onde nem o sol pálido daquela manhã conseguia aquecer as almas. Suas portas se abriram para o ritual da adoção. Casais abastados, com suas razões sempre misteriosas para não quererem ter filhos, vinham em busca de um diamante perdido em meio ao caos que, esperavam, pudesse ofuscar as suas próprias vidas caóticas. Para eles, era um evento como qualquer outro. Mas para as crianças, renegadas pelo seu próprio sangue, era a chance de uma vida de verdade.
O ritual era sempre o mesmo: alinhavam as crianças do menor para o maior, enfiadas em suas melhores roupas — o que quase sempre significava peças com o mínimo de remendos possível. Deveriam manter o olhar para frente e não falar quando não fossem solicitadas. Pares e mais pares de olhos percorriam os rostos esmaecidos, procurando com atenção a criança adequada para ganhar um sobrenome, uma cama limpa e um prato de sopa quente.
Eustácio, conhecido por todos como Acio Chapéu, tinha dez anos e conhecia o ritual como ninguém. Nascido no orfanato, ele havia passado uma década assistindo àquele espetáculo de esperança e rejeição. Mas enquanto as outras crianças torciam para serem vistas, ele, com sua cabeça desproporcional, os cabelos vermelho-fogo e um sorriso que causava desconforto em qualquer um, sabia que estava ali apenas para preencher a fila.
O ritual, como sempre, havia terminado sem surpresas para ele. A última família partiu, e o silêncio pesado da casa tomou o lugar da esperança forçada. Acio, com o rosto pálido, aproximou-se da senhora Piedade, que organizava papéis sobre a escrivaninha.
— Senhora Piedade, a senhora acha que um dia alguma família vai me escolher? — sua voz saiu baixa.
Ela não levantou os olhos do documento.
— Certamente que não. Eles nunca escolhem crianças esquisitas! Agora volte para o jardim e vá conversar com as flores novamente, como sempre faz. — A voz dela era fria, tão gélida quanto o orfanato em que viviam.
Gostaria de dizer a vocês que ele foi adotado no mês seguinte, mas meu dever para com vocês é a verdade, somente a verdade e nada mais. Não florearei nenhuma experiência pelo simples motivo de não gostar muito de flores, diferente do Eustácio, que as amava, principalmente as vermelhas em formato de coração, que cresciam como praga por todo o jardim.
Chapéus, flores e livros, essa era a paixão dele. Nos livros ele se perdia em aventuras com piratas, em florestas sombrias e em castelos mal-assombrados. Mas era junto às flores que ele se sentia em casa, principalmente quando passou a comer a sua preferida.
Ele olhava para as demais crianças, com um sorriso extremamente esticado, e dizia, antes de se servir:
— Vocês também querem amor? Olha, aqui no jardim tem amor para todos nós!
As crianças olhavam para ele, com seus olhares julgadores e, por fim, o ignoravam.
Dia após dia, mês após mês, Eustácio comia as flores vermelhas, chamada por ele de Amor Carmim, e após ingeri-las recostava na árvore mais frondosa e esperava suas visões chegarem.
O início das visões era, basicamente, sempre o mesmo: uma mulher de coroa na cabeça, de um péssimo humor, olhava ele sendo empurrado no carrinho de bebê, nos jardins de um castelo, por um homem sorridente, de chapéu colorido, que sempre fazia caretas e contava piadas.
Ele era um bebê feliz e amado.
Em outras visões, ele estava maior, com cinco anos, e achava estranho que todas as pessoas diferentes, por quem ele se afeiçoava, simplesmente desapareciam dos imensos jardins do castelo.
Ele sentia falta de cada uma daquelas pessoas estranhas, do homem de nariz grande e pontudo, dos meninos com cabeças em formato de pirâmides, da mulher vesga e, por que não, da mulher de cabelos brancos?
Em uma das visões, ele, já adulto, encontrava todas essas pessoas em uma casa grande, bonita e confortável, onde passavam horas conversando e tomando chá.
Ali ele não era mais Eustácio, era Acio Chapéu.
Quando sua consciência retornava para o jardim do orfanato, Eustácio não se sentia mais ele. Era como se no mesmo corpo habitassem duas almas, dois estados de consciência, um duelando com o outro. A verdade é que ele estava cansado de ensaiar um sorriso, um comportamento ou um vocabulário adequado. E naquela noite, às vésperas de completar treze anos, ele decidiu: não atenderia mais pelo seu antigo nome, Acio era quem ele era. Mas a regra não se aplicaria para a senhora Piedade, não, com ela não. Com ela, ele ainda precisaria continuar sendo Eustácio, o que falava pouco, com medo de falar o que não deveria. Contudo, sua atuação não era constante, afinal ele pouco a via. Era com seus amigos que ele passava a maior parte do tempo. Eles também estavam morando no orfanato e, juntos, eles formavam uma grande família, unidos por esquisitices, rejeições, relógios com horários distintos, gosto por chá, flores e charadas sem respostas.
É claro que, aos dezesseis anos, Acio já tinha tantos chapéus que, às vezes, até presentava as demais crianças. Todos os chapéus eram feitos por ele, e, o que antes era para esconder seus cabelos vermelhos e bagunçados, agora era para combinar com eles, ou, somente destacá-los.
Acio tinha chapéu para o chá antes da aula, outro para o chá depois da aula. Tinha também para os passeios no jardim do Amor e para piqueniques próximo ao rio Tudo Leva.
— Dezesseis anos, uma boa idade! — disse para si, colocando seus chapéus na mala.
— Por que é uma boa idade? — o menino que estava na cama ao lado desejava saber.
— Porque não é quinze, nem dezessete. Não é ontem, nem amanhã! — sua voz era gentil, mas seu sorriso era o mesmo, esticado e estranho.
— Você é louco! — o menino retrucou, sem paciência.
— É assim que os gênios são chamados. Se você tem o mar, é preciso mergulhar fundo. — Ele levou o dedo até a boca, roeu um pedaço da unha, sorriu com sua explicação e reforçou para si: — É, é sim! Ou talvez loucos são aqueles que buscam razão para tudo!
Acio não se importou com a opinião do menino, mas fez questão de demonstrar sua grandeza.
— Para onde você está indo? — a curiosidade do menino foi maior que sua impaciência.
— Para qualquer lugar em que eu possa vender meus chapéus e que eu possa tomar chás com meus amigos. Afinal, eles não param de chegar.
Acio sorria satisfeito, pois sabia que, aonde fosse não estaria sozinho.
O dia estava quente e ensolarado, tão quente que as pedras do Orfanato Piedade pareciam suar. Acio, por fim, se despediu da senhora Piedade. Foi um adeus sem palavras, apenas um balançar de cabeça seco e frio. Ele pegou sua mala de cinco cadeados, ajeitou o chapéu feito de espelhos, que refletia a luz do sol em todas as direções, e seguiu seu caminho ao lado dos seus amigos.



Comentários